O Compete 2030 vai avançar em 2026 com uma nova reprogramação profunda, que pretende responder simultaneamente ao fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), à baixa taxa de execução do programa e às novas prioridades estratégicas europeias, como a defesa e as tecnologias críticas. A revisão será marcada pela criação de dois novos instrumentos financeiros, com especial destaque para o financiamento por capital de risco a startups portuguesas.
Preparar o pós-PRR e acelerar a execução
Com o PRR a terminar a 31 de agosto de 2026, o Compete enfrenta o desafio de garantir continuidade a várias políticas públicas que foram temporariamente transferidas para a “bazuca europeia”. Durante este período, algumas linhas tradicionais do Compete foram suspensas para evitar sobreposição de apoios.
A nova reprogramação pretende precisamente retomar essas iniciativas, incluindo áreas como a modernização administrativa, e ao mesmo tempo assegurar o cumprimento da regra europeia do N+3, que obriga os programas a executar os fundos dentro de um prazo máximo de três anos. Atualmente, o Compete apresenta uma taxa de execução de cerca de 5%, significativamente abaixo da média do Portugal 2030, o que aumenta o risco de perda de fundos comunitários caso não haja correções imediatas.
Defesa entra no centro da estratégia
Outra das grandes novidades é a integração da defesa no âmbito do Compete, através da Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP). Esta mudança reflete a nova orientação da União Europeia para reforçar capacidades industriais e tecnológicas em áreas consideradas estratégicas, como segurança, semicondutores, inteligência artificial e tecnologias dual-use.
A reprogramação permitirá alinhar o Compete com estas prioridades europeias e criar condições para que empresas portuguesas possam participar em cadeias de valor associadas à defesa e à inovação tecnológica avançada.
Dois novos instrumentos financeiros, uma aposta clara nas startups
O elemento mais estrutural desta reprogramação é a alteração dos instrumentos financeiros. Alguns mecanismos previstos anteriormente — como modelos híbridos de subvenção e empréstimo — perderam relevância face ao reforço de instrumentos como o IFIC (Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade) e à maior intervenção do Banco Português de Fomento.
Face a este novo contexto, o Compete vai criar dois instrumentos financeiros mais ajustados às falhas atuais do mercado:
1. Capital de risco para startups e deep tech
Em parceria com o Banco de Fomento e a Portugal Ventures, será lançado um instrumento focado no financiamento por participação em capital para startups, sobretudo tecnológicas e deep tech.
O objetivo é claro: melhorar o acesso ao mercado de capitais em Portugal, evitar que empresas promissoras tenham de procurar financiamento nos EUA ou no Reino Unido e reduzir a tendência para a venda precoce a investidores estrangeiros.
Este modelo aproxima-se do que é feito ao nível europeu pelo European Innovation Council (EIC), mas com uma abordagem nacional e adaptada à realidade portuguesa.
2. Continuidade dos instrumentos de sucesso do PRR
A reprogramação prevê também dar continuidade aos instrumentos que demonstraram eficácia durante o PRR, incluindo o IFIC, integrando-os de forma estruturada no Compete 2030. A lógica é aproveitar soluções já testadas, em vez de criar novos mecanismos do zero, garantindo previsibilidade para empresas e investidores.
Um Compete mais estratégico e orientado ao impacto
Esta nova reprogramação pretende ser mais do que um ajuste técnico. Trata-se de um reposicionamento estratégico do Compete 2030, com maior foco em:
- Execução efetiva dos fundos europeus
- Apoio ao crescimento de startups nacionais
- Retenção de valor económico e tecnológico em Portugal
- Alinhamento com prioridades europeias, como defesa e tecnologias estratégicas
Se for bem executada, esta mudança poderá reforçar o papel do Compete como motor da competitividade empresarial e da inovação em Portugal no período pós-PRR.

